quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Ê Caio!

“Algumas vezes eu fiz muito mal para pessoas que me amaram. Não é paranóia não. É verdade. Sou tão talvez neuroticamente individualista que, quando acontece de alguém parecer aos meus olhos uma ameaça a essa individualidade, fico imediatamente cheio de espinhos - e corto relacionamentos com a maior frieza, às vezes firo, sou agressivo e tal. É preciso acabar com esse medo de ser tocado lá no fundo. Ou é preciso que alguém me toque profundamente para acabar com isso.”
- Caio Fernando Abreu.

Os Bobos

"Ele chega e não diz nada nem da minha roupa nova e nem da minha casa que perfumei pra ele. Então eu também não digo nada sobre estar geando e ele ter vindo só de camiseta direto do trabalho. Então começamos a ver o filme e como ele não faz questão de encostar a perna na minha perna, eu que não sou boba de encostar a minha perna na dele. E na cena de sexo do filme, como ele não sorri e nem olha pra mim, também fico mais fria do que estão meus pés. Ao final do filme, ele corre para olhar o celular dele. Eu que não sou boba e jamais posso perder para alguém, muito menos para um homem, menos ainda para um homem que me interessa, corro para olhar meu celular também. E como vejo que ele olha as mensagens e sorri, acabo tendo gargalhadas ao olhar meu visor com a foto da minha cachorra e nada mais. E então pessoas começam a ligar pra ele. Tudo bem que é a mãe e o amigo do futebol, mas é tarde demais. Eu, como não sou nem um pouco boba, mando algumas mensagens de texto para algumas pessoas sem que ele perceba, só para receber também várias ligações. Daí ele fala rapidamente da ex namorada, acho até que por culpa minha, eu devo ter perguntado alguma coisa. E eu começo a falar dos meus 789 ex namorados. Porque meu filho, nesse quesito eu ganho de você. Você teve aí, nesses seus poucos anos a mais do que eu, o quê? Umas três namoradas? Ah, querido, isso eu tive só no terceiro colegial. E então eu começo a falar deles. E dos outros tantos que foram só casinhos. E dos outros tantos que foram só sexo. E falo de sexo como se eu fosse uma versão magra, clara e pobre da Preta Gil. Só que mais devassa. E fico com vontade de deitar no colo dele e falar que é tudo mentira. Eu nem namorei tanto assim. E sou a mais imbecil do mundo porque sempre acho que vou casar com qualquer um que me come. E nem dou, pra falar a verdade, pra qualquer um. E mesmo para os que não são qualquer um, demoro um pouco pra conseguir tirar qualquer peça de roupa mais íntima. Mas não, eu não posso ser boba, eu não sou boba. E então, e então, porque ele não fala nada em jantar comigo, marco um jantar com um amigo na frente dele. E porque ele não fala nada em me encontrar depois, deixo claro, antes dele dizer qualquer coisa, porque não sou boba, que já tenho compromisso pra depois do jantar também. E minto que vou passar uma semana no Rio. É mentira, são só dois míseros e infinitos dias. Mas não sou boba. Eu não sou boba. E porque ele faz um pouco de cara de tédio e eu acho que ele vai ficar entediado de mim e querer ir embora, o expulso da minha casa. Vamos! Suma daqui desgraçado! Eu não sou boba, entendeu? EU NÃO SOU BOBA. E ele me pede só mais uma música, só mais um beijo e alguns segundos para calçar os sapatos. E eu digo que não, preciso que ele vá embora agora porque tenho algo muito importante a fazer. E como bocejo pra ele mas olho misteriosa pela janela, fingindo que alguém incrível me espera ansioso pelas ruas do mundo, deixo claro que é melhor ele desistir logo de mim. Porque não sou boba. E então ele sai, sem nem amarrar direito os cadarços. E volta pra casa sem tempo de me convidar para o jantar, a festa, o sexo. Sem tempo de encostar sua perna na minha, elogiar minha roupa, o perfume, deixar vir e deixar ir o tédio. Deixar vir e deixar ir a dúvida. E eu fico aqui mais uma vez, tão esperta."
Tati Bernardi

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Da ilusão do amor racional

Boris Yellnikoff: [to audience] I happen to hate New Year's celebrations. Everybody desperate to have fun. Trying to celebrate in some pathetic little way. Celebrate what? A step closer to the grave? That's why I can't say enough times, whatever love you can get and give, whatever happiness you can filch or provide, every temporary measure of grace, whatever works. And don't kid yourself. Because its by no means up to your own human ingenuity. A bigger part of your existence is luck, than you'd like to admit. Christ, you know the odds of your fathers one sperm from the billions, finding the single egg that made you. Don't think about it, you'll have a panic attack.


Whatever works =)
Annie Hall: Alvy, you're incapable of enjoying life, you know that? I mean you're like New York City. You're just this person. You're like this island unto yourself.
Alvy Singer: I can't enjoy anything unless everybody is. If one guy is starving someplace, that puts a crimp in my evening.

Então, o tempo passa mais rápido quando você não se importa.Passa mais rápido e mais fácil, quando você não se conecta através desses fios hipócritas de suposições afetivas, emaranhado de fraquezas onde você anseia verdades mas pede mentiras involuntariamente. E é estranho tropeçar nessas antigas memórias vez e outra, vendo alguém que você costumava ser, mais maleável, mais acessivel, mais inconseqüente, alguém que não se assemelha em mais nada com você.
Tinha aquele velho caderno, aquela velha tristeza gritando jovem e louca. Aquelas velhas dúvidas tão complexas que hoje são respostas simples e práticas, fiz de tudo teorias, cálculos precisos. Aquele gosto de "morangos mofados" junto daquela impressão de que tudo estava fora do lugar. Teve aquele dia em que tudo teve de ser limpo e organizado minuciosamente, como um ponto final, que encerra algo em mim, mas não sei bem o que.
Tinha aquela expectativa fantasiada de comodismo, não suportava vê-la.
E eu era verde, verde..
Vestia uma velha capa de "pessoa-forte", enquanto por dentro era a personificação da fraqueza. Convenhamos que, por orgulho, quando me impunha uma meta de superar alguma coisa eu conseguia; talvez por gritar tão alto pro espelho todos os dias que se tornava verdade , sempre tem haver com ego, não tem? Mas não é desse ego inchado que falo, mas sim dessa proteção que temos, ou só eu tenho, sei lá.
E tudo em mim era verde, verde...
E tinha aquela velha procura por algo ou alguém que completasse, é nauseante pensar em tudo que poderia ter sido evitado.
E tinha aqueles livros, as músicas e todo o processo lento de adaptação a tudo isso, a esse mundo, as pessoas, tudo que em nós se torna fraco e velho.
Tinha aquela necessidade de uns "vocês" que foi substituída por mais "eus". Tinha aquelas confissões de  não ligar, quando no fundo todos nós queremos esses "sins" todo dia, mas sempre fui a negação fácil.
E eu me via verde, verde..essa questão das cores é mesmo importante, sim.
Hoje eu quero a cor daquele pôr-do-sol, da lua, da nuvem de chuva. Quero a evolução, a passagem do superficial asfixiante pra algo que valha. Quero mais dessa certeza,mais dessa calma, dessa paz. Quero mais dessas tardes chuvosas, mais daquela alegria sem motivo. Quero mais livros,mais diálogos produtivos. Quero ainda mais dessa não necessidade do mundo.
E é tudo azul, azul. Plenitude.